sábado, 19 de fevereiro de 2011

O QUE APRENDI COM MINHA MÃE




Carícia Temporal

Repórter


Das minhas inúmeras manias e TOCs, tenho um vício em especial que poda toda e qualquer vontade de escrever um texto. Metalinguagem. É uma aproximação padronizada, uma maneira de quebrar o gelo com o interlocutor. Timidamente, chego no balcão do bar para tentar ganhar sua atenção. Tal como cantada de festa, tenho apenas uma chance. Pois bem, eu sou aquele que tem medo de ousar e volta sozinho pra casa. Os despudorados ganham a garota no bar, porque são aqueles que não temem o embaraço.

Um pensamento que me ocorre com certa frequencia há alguns meses é de que fui emburrecendo com o tempo. E não quero com isso afirmar que fiquei burra, mas fui podada. A gente cresce e se adequa aos moldes por vontade própria. Vamos ficando mais exigentes com as pessoas e com a gente mesmo. Não sei manter um blog pessoal porque tenho vergonha. E talvez só admita isso porque às duas da manhã eu viro ré confessa. Coisa estranha de se pensar que aspirantes a repórteres podem se dar ao luxo da timidez.

Conheci muitos jornalistas de renome ao longo de curso superior. Gente que aprendi a admirar e a me inspirar. Não importa o número de grandes repórteres que eu venha a conhecer. Filha de jornalista, meu maior referencial da profissão nunca vai deixar de ser minha mãe. Com ela aprendi a ser gente e a conhecer gente. Freqüentei redações desde criança, brincando com recortes de fotografias e grides da diagramação. Nessa época, eu nem sonhava que um dia escolheria seguir a carreira. Vida difícil era sair da escola e dar "uma passadinha" de duas ou três horas no trabalho da mamãe, onde todo mundo falava ao mesmo tempo e tinha cheiro de café. 

Uma televisão ficava sempre ligada, mas ninguém nunca estava prestando atenção na tela. Não me atrevia a mudar para o canal dos desenhos, mas podia arriscar pedir para visitar o subsolo e ver a rotativa – uma máquina grande e mágica, quase impensável para mim – sempre acompanhada de um "tio" da fotografia. O tempo passou e essas memórias também. A opção pelo jornalismo veio muito depois, em meio a decisões igualmente abruptas que até hoje me levam a ponderar, pelo menos uma vez ao dia, se estou seguindo a carreira certa.

Ter os pais por referencial de profissão não é encarado de maneira positiva. Não sei ao certo se cheguei a topar com esse tipo de problema, talvez porque fugi à responsabilidade de viver na sombra da popularidade de minha mãe. Se ainda me pergunto se tenho o mesmo talento para escrita, não restam dúvidas de que não herdei tamanha simpatia. Minha mãe sempre foi uma pessoa luminosa aos meus olhos. Não há lugar que ela entre sem ser notada. Com um sorriso tão brilhante quanto sua personalidade, minha mãe tem amigos por toda parte. Ser filha – e constantemente comparada – a ela não é ofício brando. Mesmo distante, dá pra sentir consequências. Algumas bem vindas, outras nem tanto. A responsabilidade do sobrenome soma algumas toneladas ao peso da autocrítica, mas o orgulho que ela me inspira contrabalança a carga.

Longe de casa, estudei jornalismo. Aprendi técnicas de texto. Evitar artigos e pronomes pessoais. Evitar sentenças longas demais, frases confusas, frases indiretas, pontuação excessiva. Amadureci, bastante. Mas não consigo deixar de pensar que algo deixei escapar. Um quê de inventividade ingênua. Antes da faculdade, fresca e sem moldes, minha mente costumava funcionar com maior liberdade, sem a preocupação constante de amarrar bem as ideias no texto. O tempo, gatuno que é, me levou essa criatividade extrovertida. Hoje, ideia, que nem tem mais acento, tem que vir na hora certa e se desenvolver no molde. Para atender às exigências da minha crítica timidez, errar é quase proibido – o que aumenta consideravelmente o volume de desacertos.

Por isso que eu, hoje, brindo a minha mãe. E na figura dela, todos aqueles que têm coragem de acertar sem medo de errar. Minha mãe é o meu exemplo, com ou sem distância – mesmo que faça carreira onde ninguém sequer ouviu falar nela. E mais do que qualquer técnica de redação, o que aprendi de mais relevante para este ingrato e gratificante ofício da reportagem foi com ela. Ela que provavelmente ensinou sem o saber: espontaneidade. Iniciada a minha empreitada jornalística, vencer o acanhamento e o embaraço torna-se a principal tarefa. Simples para o cara que leva a garota pra casa no bar, mas espinhosa para a pequena repórter que ainda tem vergonha de pedir para ver a rotativa no subsolo do jornal.

6 comentários:

Carlãozinho da Bahia disse...

Se Suely não chorou com o texto maravilhoso de Carícia eu corto o dedo com problema de LER e não de velhice, o famigerado "Dedo em gatilho", uma forma de LER que atende pelo nome oficial de "Tenossinovite Estenosante do 3º quirodáctilo". Parabéns às duas. Fiquei emocionado.

Nilo Correia disse...

Zorra Su, responsabilidade da zorra!!! Parabéns pela criação dessa garota. Fiquei orgulhoso. Congaratulações

Rafael Veloso disse...

Parabéns as duas. Prova de que filho de peixe, peixinho é. Caricia continue seguindo o exemplo de sua mãe e terá o mesmo sucesso que ela. Uma profissional reconhecida por unanimidade nas redações de Salvador.

Suely Temporal disse...

Em nome de Carícia, agradeço à tio Carlão, tio Nilo e "tio" Rafa (rsrsrs).

Paulo disse...

Eu também não posso deixar de dizer que tenho muito orgulho de minha sobrinha. Aliás, como sempre. E eu posso dizer aquilo que eu mais gosto quando falo dela: EU JÁ SABIA! UM BEIJÃO.

Isabel Santos disse...

Belo texto, Carícia. Não há dúvidas de que você deve seguir em frente, e ainda mais com esse suporte de amorosidade, profissionalismo, coragem... de sua mãe. Sucesso e parabéns, colega/sobrinha.