sábado, 31 de março de 2007

O HOMEM QUE ENGOLIU O DICIONÁRIO

Eles tinham se conhecido há pouco tempo, mas estavam apaixonados. Ele dizia que ela era completa e ela achava que tinha encontrado o homem da sua vida. Não fosse a sua mania de falar difícil, seria perfeito! Êta homem pra falar complicado! Parecia que tinha engolido um dicionário! Era um cara cheio de verbetes com oxítonas e proparoxítonas, analises morfossintáticas, ênclises, próclises e mesóclises. Era daqueles que sempre tinha algo a dizer. Em latim, na maioria das vezes.
No começo ela achava tudo aquilo muito romântico, diferente até... Mas depois começou a ficar engraçado. Ele sempre era alvo de gozação dos amigos. Ela mesma era a primeira a tirar sarro da cara do sujeito. Ele nem se importava. Afinal de contas era um gentleman e achava que sua amada era uma garota espirituosa... Os amigos, uma patuléia ignara... Por isso, nem se aborrecia quando ela dizia que namorava uma enciclopédia ambulante e que precisava de um tradutor para entender o que ele falava. E olhe que ela não era nenhuma ignorante. O cara é que era mesmo de lascar! Adorava esbanjar a verborréia.
Até nos assuntos mais prosaicos e corriqueiros, lá vinha ele com uma expressão rebuscada no estilo rococó. Uma vez, estavam conversando sobre um vizinho que era brigão. No meio da conversa ele disse que o moço era “atrabiliário”... Peraí! – reclamou a namorada. Que diabéisso! Quero dizer que o vizinho é encrenqueiro, amor! – respondeu o empertigado. Essa eu vou anotar! – disse a namorada.
Ás vezes parecia que ele estava falando em outro idioma. Numa conversa sobre viagens, ele falava em “topônimos” e em “algaravias” ininteligíveis... Nessas ocasiões, ela corria para o dicionário para ver o significado das palavras e descobria que topônimo nada mais é do que nome de lugar e que algaravia é algo que é dito ou escrito de modo confuso, que ninguém entende.
De uma coisa ela não podia reclamar: aquele namoro estava enriquecendo o seu vocabulário. Afinal, namoro também é cultura! E no caso deles então, era mais que isso. Era uma verdadeira pós-graduação nos vernáculos da língua pátria. Outra mania estranha que ele tinha, era a de ler rótulos de produtos e bulas de remédio. Antes de comer um simples biscoito ele sabia até o endereço do fabricante. Apesar da estranha mania, estava longe de ser um chato. Era metido, porém era engraçado. Mas nem sempre obtinha sucesso na arte de fazer graça porque a maioria das suas piadas necessitava de tradução simultânea para o nosso português mal falado.
Certa vez estavam tomando Gim Tônica quando surgiu a dúvida gramatical: é Gim Tônico ou Gim Tônica... Se a bebida é Gim com Água Tônica, é Gim Tônica na certa! Não satisfeito em explicar as classificações gramaticais do gim, o sujeito começou a discorrer sobre a bebida que era feita com bagas espremidas de zimbro. Antes que ele pudesse esclarecer que se tratava de uma planta, alguém do grupo comentou: quem é esse zimbro que teve os bagos espremidos para a gente beber? Será que sobreviveu? – Quis saber outro. Sem dar tempo para ele responder, a namorada arrematou: tá vivo, mas fala fino até hoje...
Depois, em casa, já de ressaca, ele precisou tomar um antiácido efervescente, que ela, muito solícita, se ofereceu para preparar. Ao ver o copo cheio, ele reclamou da quantidade de água que ela havia colocado. Em resposta, ela explicou que tinha seguido as especificações da embalagem: uma colher de chá dissolvida em 2/3 de um copo d´água. RECEBA!

Do livro (ainda inédito) Pelo Direito ao Faniquito – Aguardem lançamento

Um comentário:

Carlão de Oliveira disse...

Que maravilha! Quero ser o primeiro da fila na noite de autógrafos.